Com aportes do BNDES e da Finep, a política industrial ultrapassa marca histórica e amplia acesso ao crédito industrial até o fim de 2026.
Quando o governo federal lançou a Nova Indústria Brasil (NIB) em janeiro de 2024, o volume anunciado de R$ 300 bilhões para financiamentos já soava ambicioso. Dois anos e meio depois, o programa já ultrapassou essa marca e recebeu mais R$ 140 bilhões em recursos adicionais, levando o total disponível para mais de R$ 750 bilhões entre 2023 e 2026. O anúncio foi feito durante a cerimônia dos 74 anos do BNDES, com a presença do presidente Lula e do vice-presidente Geraldo Alckmin. Para quem acompanha o setor, a dúvida que permanece é prática: como esse dinheiro realmente chega até a indústria? Quem pode acessar e por quais caminhos?
A estrutura de financiamento da NIB é mais diversificada do que a maioria imagina. Os recursos são disponibilizados pelo BNDES, pela Finep e pela Embrapii, por meio de linhas de crédito reembolsáveis, recursos não reembolsáveis e participações acionárias, em alinhamento com as seis missões que organizam a política industrial. Isso significa que empresas de diferentes portes e estágios de desenvolvimento podem acessar instrumentos adequados ao seu perfil.
Como funciona o financiamento na prática: linhas e condições
O eixo central de financiamento da NIB está organizado no Plano Mais Produção, que contempla quatro linhas de atuação. A primeira é o Mais Produtividade, voltada à ampliação da capacidade industrial por meio da aquisição de máquinas e equipamentos nacionais. A segunda é o Mais Inovação e Digitalização, que cobre projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação, com condições especiais de Taxa Referencial (TR) mais 2% ao ano, os menores juros já praticados para financiamento à inovação no Brasil. A terceira linha é o Mais Verde, para projetos de sustentabilidade industrial. E a quarta é o Mais Exportação, com incentivos para acesso ao mercado internacional.
Para as micro, pequenas e médias empresas, o programa tem demonstrado alcance real. Do total investido pelo BNDES desde 2023, R$ 111,8 bilhões foram destinados a esse segmento, em 157,2 mil operações. São números que mostram que a política não está concentrada apenas nas grandes corporações, ainda que estas respondam por R$ 175,6 bilhões em 22.417 operações. Além disso, o banco financiou 493 mil máquinas e equipamentos nacionais e apoiou exportações com R$ 56 bilhões em três anos, o dobro do registrado nos seis anos anteriores. Para quem deseja acessar as linhas disponíveis, o portal Investe Indústria Brasil, lançado pela ABDI, funciona como um mapa atualizado dos programas, com orientação sobre elegibilidade e caminhos de acesso.
Setores prioritários e onde o dinheiro está concentrado
A lógica de alocação da NIB é orientada por seis missões estratégicas. Pela distribuição dos recursos já investidos, a transformação digital da indústria lidera com R$ 84,6 bilhões, seguida pelas cadeias agroindustriais sustentáveis (R$ 76,9 bilhões) e pela infraestrutura e mobilidade (R$ 63,1 bilhões). A descarbonização e a defesa receberam fatias menores, mas ainda significativas: R$ 27,8 bilhões e R$ 17,6 bilhões, respectivamente. A saúde, com R$ 7,1 bilhões, completa o quadro. Esses números indicam que a digitalização industrial não é apenas uma prioridade discursiva, mas a principal aposta real de recursos do programa.
Entre os segmentos que concentram atenção especial nos novos R$ 140 bilhões estão inteligência artificial, biofármacos, fertilizantes, máquinas agrícolas, minerais críticos, mobilidade sustentável e tecnologias duais. A inclusão de IA como segmento estratégico é um dado novo e relevante: indica que o governo reconhece que a competitividade industrial futura dependerá da capacidade das fábricas de incorporar sistemas inteligentes em seus processos produtivos. O governo também anunciou um aporte de R$ 400 milhões para a Embrapii, dividido entre BNDES e Finep, para financiamento de projetos estruturantes de pesquisa e desenvolvimento em parceria com empresas. Isso aproxima o ecossistema industrial do científico, reduzindo a distância histórica entre fábrica e universidade no Brasil.
Fontes: gov.br/secom | agenciadenoticias.bndes.gov.br | gov.br/mdic | cimm.com.br
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
