O doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em Geriatria, com ampla expertise na área, construiu uma iniciativa há três anos que demonstra, na prática, o poder transformador da ação voluntária em saúde: o projeto social Humaniza Sertão. A saúde comunitária representa uma das formas mais completas e mais necessárias de exercer a medicina em um país marcado por profundas desigualdades no acesso ao cuidado. Quando profissionais de saúde decidem ir além dos limites do consultório e se engajar ativamente nas realidades de suas comunidades, o impacto de seu trabalho se multiplica de formas que nenhuma consulta isolada poderia alcançar.
Ao longo deste artigo, você vai entender o que move profissionais de saúde ao voluntariado, como a ação comunitária complementa o sistema público e de que forma o modelo do Humaniza Sertão pode inspirar uma nova cultura de saúde coletiva no Brasil. Acompanhe!
O que leva profissionais de saúde ao voluntariado?
O voluntariado em saúde nasce de uma convicção que nenhum currículo forma e nenhum salário sustenta: a de que o conhecimento adquirido ao longo de anos de estudo e prática tem uma dimensão coletiva que precisa ser colocada a serviço de quem não teria acesso a ele de outra forma. Profissionais que optam pelo voluntariado fazem uma escolha que vai além da generosidade. Eles fazem uma afirmação sobre o tipo de médico, fisioterapeuta, psicólogo ou nutricionista que querem ser.
Segundo o doutor Yuri Silva Portela, a motivação que move os voluntários do Humaniza Sertão é a combinação entre o impacto visível e imediato do trabalho e o senso de pertencimento a algo maior do que a prática profissional individual. À medida que um voluntário vê a transformação que seu atendimento produz na vida de uma pessoa que nunca teve acesso àquele cuidado, algo muda também nele. A prática se enriquece, a perspectiva se amplia e a vocação se aprofunda de formas que o trabalho convencional raramente proporciona.
Como a saúde comunitária complementa o sistema público?
O sistema público de saúde brasileiro é uma conquista histórica que, apesar de suas limitações, representa um compromisso coletivo com o direito universal à saúde. Iniciativas de saúde comunitária como o Humaniza Sertão não competem com esse sistema nem o substituem. Elas o complementam, chegando onde ele ainda não chegou e oferecendo tipos de cuidado que sua estrutura atual não consegue suprir de forma adequada.
Yuri Silva Portela evidencia que a especialização geriátrica, por exemplo, é escassa em municípios do interior do Brasil. Comunidades do sertão nordestino que dependem exclusivamente do sistema público dificilmente terão acesso regular a um geriatra. De maneira que o Humaniza Sertão preenche essa lacuna de forma pontual, mas consistente, garantindo que idosos de regiões remotas tenham contato com um cuidado especializado que, de outra forma, seria completamente inacessível para eles.
Quais são os desafios do voluntariado em saúde?
Manter um projeto de saúde comunitária ativo, de qualidade e com impacto consistente ao longo do tempo não é uma tarefa simples. Nesse sentido, Yuri Silva Portela elucida que o voluntariado enfrenta desafios que precisam ser reconhecidos e gerenciados com inteligência para que o projeto se sustente sem comprometer nem a saúde dos voluntários nem a qualidade do cuidado oferecido às comunidades.

Entre os desafios mais comuns estão a conciliação entre os compromissos profissionais regulares e o engajamento voluntário, o risco de esgotamento emocional decorrente do contato frequente com situações de vulnerabilidade extrema, a necessidade de recursos logísticos e financeiros para deslocamentos e materiais e a complexidade de coordenar uma equipe multidisciplinar diversa em contextos operacionais desafiadores.
O legado da saúde comunitária nas comunidades atendidas
O legado de um projeto de saúde comunitária vai muito além dos atendimentos realizados. Ele se manifesta nas mudanças de comportamento que permanecem nas comunidades depois que a equipe vai embora, nos conhecimentos sobre saúde que as famílias carregam consigo, nas redes de cuidado que se formam entre vizinhos e nas expectativas que se elevam em relação ao tipo de atendimento que as pessoas merecem receber.
Além disso, Yuri Silva Portela nota que comunidades que são regularmente visitadas por equipes de saúde comprometidas e humanizadas desenvolvem, com o tempo, uma cultura de cuidado mais proativa. As pessoas passam a buscar atendimento médico antes que os problemas se agravem, a identificar sinais de alerta com mais rapidez e a valorizar a prevenção como parte de seu cotidiano. Essa transformação cultural é o legado mais duradouro e mais valioso que um projeto como o Humaniza Sertão pode deixar.
Servir além do consultório é ampliar o sentido da medicina
A medicina que vai além do consultório e alcança as comunidades onde a necessidade é mais urgente é uma medicina que compreende sua própria vocação em sua dimensão mais plena. Ela não se contenta com o cuidado de quem pode pagar ou de quem pode se deslocar. Ela vai buscar quem não pode, levando cuidado onde ele é mais necessário.
O Humaniza Sertão é a expressão prática dessa medicina ampliada, liderada pelo doutor Yuri Silva Portela com o apoio de mais de 20 profissionais voluntários que escolheram, mês após mês, servir além do que lhes seria exigido. Essa escolha é um presente para as comunidades do sertão cearense e um exemplo para toda a comunidade de saúde brasileira.
Se você é um profissional de saúde, considere o voluntariado como parte de sua prática. Se você é um cidadão, apoie e valorize quem faz essa escolha. O cuidado que transforma começa com pessoas que decidem ir além.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
