Índice da Confederação Nacional da Indústria recua pelo 19º mês seguido e atinge 44,4 pontos em julho, pior marca desde 2020.
A indústria brasileira atravessa um paradoxo que chama atenção de analistas econômicos: a produção segue crescendo no acumulado do ano e o emprego formal se expande mês após mês, mas os empresários do setor nunca estiveram tão pessimistas desde o início da pandemia de covid-19. É o que mostra o Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI), divulgado pela Confederação Nacional da Indústria em 13 de julho. O indicador caiu de 46,7 para 44,4 pontos, uma queda de 2,3 pontos em relação a junho, e chegou ao menor patamar desde junho de 2020. Entender por que a confiança despencou, mesmo com números operacionais relativamente estáveis, ajuda a explicar o comportamento cauteloso que vem marcando as decisões de investimento no setor.
Dezenove meses seguidos abaixo da linha de confiança
O ICEI é construído em uma escala de zero a cem pontos, na qual resultados acima de 50 indicam confiança e abaixo desse patamar sinalizam falta de confiança entre os empresários industriais. Com o resultado de julho, o indicador completa dezenove meses consecutivos na faixa negativa, a segunda maior sequência de pessimismo da série histórica, atrás apenas do período de recessão entre 2015 e 2016. A pesquisa, realizada entre 1º e 7 de julho, ouviu 1.118 empresas de pequeno, médio e grande porte de todas as regiões do país.
A piora foi puxada por dois pilares do indicador. O Índice de Condições Atuais recuou 0,7 ponto, para 41,6 pontos, refletindo uma avaliação mais crítica do ambiente de negócios e do desempenho das próprias empresas nos últimos seis meses. Mas a retração mais expressiva veio do Índice de Expectativas, que caiu 3,1 pontos e atingiu 45,8 pontos, a maior queda mensal desde novembro de 2022. Esse componente mede a percepção dos empresários sobre o que deve acontecer nos próximos seis meses, e sua deterioração costuma anteceder mudanças reais no comportamento de investimento e contratação.
Pessimismo se espalha por setores e regiões
Um levantamento setorial complementar, também divulgado pela CNI, mostrou que o número de segmentos industriais pessimistas subiu de 24 para 26 em julho, de um total de 29 setores acompanhados. Apenas três segmentos seguiram otimistas no mês. Segundo Marcelo Azevedo, gerente de análise econômica da CNI, esse tipo de pessimismo prolongado tende a se traduzir em decisões concretas de cautela, com empresários adiando aumentos de produção, contratações e investimentos, e não apenas expressando uma percepção subjetiva sobre o momento econômico.
Na leitura regional, o quadro é mais heterogêneo. Centro-Oeste e Nordeste romperam a linha divisória e passaram a registrar confiança entre os empresários, com o índice do Centro-Oeste subindo 0,7 ponto, para 50,4 pontos, e o do Nordeste recuando ligeiramente, mas ainda em 50,8 pontos. Já o Norte, embora tenha registrado alta de 2,7 pontos, permaneceu na faixa de falta de confiança, com 48,6 pontos. A disparidade regional sugere que fatores locais, como composição setorial e dependência de exportação, pesam tanto quanto o cenário macroeconômico nacional na formação da confiança empresarial.
Por que o pessimismo não trava a produção nem o emprego
A aparente contradição entre confiança baixa e indicadores operacionais mais estáveis tem explicação técnica. O ICEI capta principalmente expectativas, enquanto dados como a Pesquisa Industrial Mensal do IBGE e o Novo Caged medem resultados já realizados, fruto de decisões tomadas meses antes. Isso significa que a produção e o emprego atuais refletem pedidos e contratos fechados em um contexto anterior, enquanto a queda de confiança sinaliza como os empresários avaliam o que vem pela frente, não necessariamente o que já está em curso.
Para analistas do setor, esse tipo de descolamento tende a ser temporário. Se o pessimismo persistir por muitos meses, a tendência histórica é que ele acabe se refletindo em desaceleração real da produção e do investimento, à medida que os empresários efetivamente reduzem planos de expansão. O próprio resultado da produção industrial de junho, que recuou 1,8% após meses de recuperação, já pode ser um primeiro sinal desse movimento, ainda que seja cedo para afirmar uma correlação direta entre os dois indicadores.
O resultado de julho consolida um cenário de cautela que já dura mais de um ano e meio no setor industrial brasileiro. Para empresários e gestores, acompanhar a evolução mensal do ICEI segue sendo uma forma de antecipar mudanças de rumo na economia, já que o indicador tende a se mover antes dos números de produção e emprego. A próxima divulgação da CNI, prevista para meados de agosto, deve mostrar se a confiança encontrou um piso ou se a sequência negativa vai se estender por mais um mês.
Fontes:
- https://www.correiobraziliense.com.br/economia/2026/07/7460339-confianca-da-industria-atinge-menor-nivel-desde-a-pandemia-aponta-cni.html
- https://www.gazetadopovo.com.br/economia/pessimismo-toma-conta-e-confianca-da-industria-atinge-o-menor-nivel-desde-pandemia-aponta-cni/
- https://www.setorprodutivo.com.br/2026/07/pessimismo-atinge-26-setores.html
- https://www.portaldaindustria.com.br/estatisticas/icei-indice-de-confianca-do-empresario-industri