Segunda queda seguida do setor coincide com obrigatoriedade de preenchimento de IBS e CBS nas notas fiscais a partir de agosto.
Empresários industriais tiveram, em poucas semanas, dois motivos concretos para revisar o planejamento financeiro do segundo semestre. Primeiro veio o dado de produção: a indústria brasileira recuou 1,8% em junho na comparação com maio, segundo a Pesquisa Industrial Mensal do IBGE, divulgada em 4 de agosto. Foi a segunda queda consecutiva e a mais intensa desde dezembro de 2025. Poucos dias depois, entrou em vigor outra mudança relevante: desde 3 de agosto, empresas do regime tributário regular são obrigadas a preencher os campos de IBS e CBS nas notas fiscais eletrônicas, uma das primeiras etapas concretas da reforma tributária que vai remodelar a carga de impostos sobre a indústria até 2033. A dúvida que fica para o setor produtivo é como equilibrar a adaptação a um novo sistema fiscal justamente em um momento de desaceleração da produção.
Indústria perde ritmo pela segunda vez seguida
Segundo o IBGE, o recuo de 1,8% em junho interrompeu uma sequência de resultados mistos ao longo do primeiro semestre. Apesar da queda, o setor ainda acumula alta de 1,5% nos seis primeiros meses de 2026 e de 0,7% no acumulado de doze meses, o que indica que o resultado negativo de junho, embora relevante, não apaga a recuperação observada em meses anteriores. Das 25 atividades industriais pesquisadas, 16 apresentaram taxas negativas em junho, e apenas quatro das grandes categorias econômicas acompanhadas pelo instituto registraram crescimento no período.
As indústrias extrativas, os derivados de petróleo e biocombustíveis e o setor automotivo foram exceções, com crescimento de 7,4%, 4,3% e 5,3%, respectivamente, na passagem de maio para junho. Para economistas consultados por veículos especializados, o resultado reflete um cenário de desaceleração da atividade econômica mais ampla, influenciado por juros ainda elevados e por uma base de comparação mais exigente em relação ao mesmo período do ano anterior. O próximo dado da PIM, referente a julho, deve ajudar a confirmar se a queda de junho representa início de uma tendência ou apenas oscilação pontual dentro de um ano de crescimento moderado.
Reforma tributária muda a rotina fiscal das fábricas
Enquanto o setor absorve o resultado da produção, outra frente exige atenção imediata dos departamentos financeiros: a implementação gradual da reforma tributária. Desde 3 de agosto, empresas do regime regular precisam informar o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e a Contribuição Social sobre Bens e Serviços (CBS) na nota fiscal eletrônica, ainda que a cobrança efetiva desses tributos siga cronograma próprio de transição até 2033. A nota fiscal de serviços eletrônica, a NFS-e, tem prazos distintos, previstos para o período entre outubro e dezembro deste ano.
Para a indústria, a expectativa geral entre especialistas em tributação é de que a mudança traga benefício líquido no médio prazo. O novo modelo de IVA Dual permite às empresas recuperar créditos sobre praticamente tudo o que compram, incluindo energia, máquinas e matéria-prima, algo que o sistema atual, baseado em ICMS, IPI, PIS e Cofins, não permite de forma plena. Isso deve reduzir o efeito cascata de impostos que hoje encarece a produção nacional e prejudica a competitividade das exportações industriais. O desafio, no entanto, está na transição em si: sistemas de emissão de notas fiscais, precificação e controles internos precisam ser adaptados enquanto o modelo antigo e o novo convivem lado a lado.
O que muda na prática para o empresário industrial
A combinação entre produção mais fraca e adaptação fiscal cria um cenário de dupla exigência para os departamentos de planejamento das indústrias neste segundo semestre. De um lado, é preciso lidar com uma demanda que voltou a perder força depois de meses de recuperação. De outro, há a necessidade de revisar sistemas de gestão fiscal, treinar equipes e, em muitos casos, repensar a localização de novas plantas considerando que, sob o novo modelo, a tributação passa a incidir no destino da mercadoria, e não mais na origem.
Consultores tributários recomendam que empresas industriais antecipem a análise de fluxo de caixa e capital de giro para o período de transição, já que o mecanismo de pagamento dividido, o chamado split payment, deve alterar a forma como o imposto é retido no momento da venda. Ainda que os efeitos práticos mais amplos da reforma só se consolidem nos próximos anos, o calendário de agosto de 2026 marca o início real da adaptação para quem produz no país.
Os dois movimentos, a leve retração da produção industrial e o início da fase prática da reforma tributária, não estão diretamente conectados, mas chegam ao mesmo tempo e exigem atenção simultânea das empresas do setor. Enquanto o mercado aguarda o próximo dado do IBGE para saber se a queda de junho vai se repetir em julho, o cronograma da reforma segue seu curso, independentemente do ritmo da produção. Para o empresário industrial, o segundo semestre de 2026 pede planejamento em duas frentes ao mesmo tempo.
- https://www.gazetaweb.com/noticias/brasil/ibge-industria-recua-18-em-junho-na-2-queda-seguida-do-setor-927019
- https://www.fenatac.org.br/post/produ%C3%A7%C3%A3o-industrial-cai-1-8-em-junho-maior-queda-em-seis-meses
- https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/industria/9294-pesquisa-industrial-mensal-producao-fisica-brasil.html?edicao=20694
- https://contaazul.com/blog/reforma-tributaria/
- https://agilize.com.br/blog/gestao-contabil-e-fiscal/impactos-reforma-tributaria/